quarta-feira, 11 de abril de 2012

O MÉTODO DO CRIMINOSO

Desde os meados do século XX, a polícia percebeu que a obra de muitos criminosos reincidentes pode ser reconhecida a partir do que geralmente se conhece como “modus operandi”, geralmente abreviado como MO. A maneira em que uma porta é arrombada, o modo como um cofre foi aberto, os instrumentos utilizados, o tipo de explosivo empregado - ou, no caso do homicídio, a maneira como a vítima é capturada, assassinada e, talvez, esquartejada – podem ser indicações claras de que uma série de crimes foi cometida pela mesma pessoa.

Em casos de assassinato em série, o assassino frequentemente deixa uma assinatura característica – a maneira em que o corpo é arranjado ou alguma outra evidência incomum – na cena do crime.

Tal assinatura não deve não deve ser confundida, no entanto, com o MO. Este é um comportamento aprendido, modificado e aperfeiçoado conforme o seu autor vai ficando mais experiente. A assinatura, por outro lado, é algo que o criminoso tem que fazer para atingir a plenitude emocional. Não é absolutamente necessário para o crime ser um sucesso, mas é parte dom motivo pelo qual a pessoa se envolve com o crime em primeiro lugar.

O MO é uma valiosa indicação para levar à identificação do criminoso.

HOMENS ALIENADOS

No início do século XX, os criminologistas começaram a prestar atenção a outros assuntos que não fossem as características físicas do biótipo criminal e começaram a estudar os processos mentais – a psicologia – que levava as pessoas à criminalidade. Eles encontraram a inspiração nas novas ideias apresentadas pela escola de psicologia de Viena, liderados por Sigmund Freud e Carl Jung.

Charles Goring, sociólogo inglês foi um dos princípios críticos das teorias de Lombroso. Goring dizia ter encontrado casos dos biótipos de Lombroso tanto entre estudantes universitários ingleses quanto entre condenados. Desenvolvendo o seu argumento no livro O Presidiário Inglês (1913), Goring dizia que muitos criminosos tinham uma inteligência menor e fazia uma ligação direta disso com a criminalidade.

Isto é tão válido quanto a generalização da classificação dos biótipos de Lombroso e, obviamente, há muitos casos em que não é verdade. Porém, Goring identificou também o que ele chamou de lobo solitário – ou aquilo que o economista e filósofo Karl Max havia chamado de homem alienado. È alguém que se sente isolado da sociedade, incompreendido e, por conseguinte, considera que tem o direito de seguir suas próprias regras de comportamento e conduta. O conceito de alienação se tornou uma parte vital na avaliação psicológica da criminalidade.

FÍSICO E CARÁTER

O psiquiatra alemão Ernst Kretschmer publicou, no início do século XX, o livro Físico e Caráter, no qual descreve suas pesquisas sobre tal assunto, mas foi só em 1949 que o norte-americano William Sheldon na obra Tipos de Jovens Delinquentes fez a primeira ligação dos biotipos com a delinquência, afirmando que todas as pessoas pertencem a um de três tipos básicos:

- Endomórfos: geralmente são suaves, arredondados e roliços, considerados simpáticos e sociáveis e que oferecem um amor incondicional.

- Mesomórfos: fortes, musculosos e atléticos, com um esqueleto grande e desenvolvido. A personalidade é forte e com uma tendência à agressividade e, ocasionalmente, muito explosiva.

- Ectomórfos: magros, frágeis e geralmente com um esqueleto pequeno e músculos fracos. Tendem a ser hipersensíveis, tímidos, distantes e introvertidos.

Sheldon examinou 200 homens em uma unidade de reabilitação em Boston, comparou-os com um estudo feito com 4.000 estudantes e chegou à conclusão de que os delinquentes tendem a ser mesomórfos. Essa teoria foi analisada posteriormente no livro Revelando a Delinquência Juvenil (1950), de Eleanor e Sheldon Glueck, em que concluíram que a delinquência está relacionada com a combinação bem mais ampla de fatores biológicos, ambientais e fisiológicos.

ALPHONSE BERTILLON

No momento da publicação do primeiro livro de Lombroso, o presidente da Sociedade Antropológica de Paris era Louis Adolphe Bertillon, que dedicou seus estudos à comparação e à classificação da forma e do tamanho dos crânios dos diferentes tipos racionais. O filho dele, Alphonse (1853 – 1914), mostrava pouco interesse no trabalho do seu pai.

Quando foi nomeado escrivão júnior no escritório de Registros da Secretaria de Polícia, n o entanto, percebeu que os métodos antropológicos poderiam ser utilizados para ligar as pessoas que acabavam de ser detidas com crimes do passado. Um dos sócios do pai, o estatístico belga Lambert Quetelet, afirmou que duas pessoas não podem ter exatamente a mesma combinação de medidas físicas, e o jovem Bertillon propôs um sistema relacionado de identificação aos seus superiores.

Entre novembro de 1882 e fevereiro de 1883, Bertillon trabalhou com esmero para estruturar um sistema de prontuários com 1.6100 registros, comparando-os com as medições que fez dos criminosos detidos. Foi no dia 20 de fevereiro de 1883 que teve sucesso pela primeira vez. Um homem que se fazia chamar “Dupont” foi levado a ele e, depois de tomar as suas medidas físicas, Betillon começou a analisar seu arquivo. Finalmente, triunfante, pegou um único prontuário e exclamou:

- Você foi preso em 15 de dezembro do ano passado!

- Naquele tempo você se chamava Martin.

A notícia desse sucesso ocupou as manchetes nos jornais de Paris. No final daquele ano, Bertillon já tinha identificado cerca de 50 reincidentes e em 1884 identificou mais de 300. As autoridades policiais e carcerárias em toda a França rapidamente adotaram o procedimento conhecido como “Bertillonage”.

Betillon começou então a fazer uso da fotografia, tanto dos presos suspeitos quanto das cenas dos crimes. Estabeleceu o processo de retratar a cara inteira e o perfil – até hoje uma prática comum – e também introduziu o que ele chamava de retrato parlé (o famoso retrato falado). Este era um sistema para descrever a forma das características faciais, como o nariz, os olhos, a boca e a mandíbula, e continua a ser a base do identikit e outros sistemas mais modernos de identificação.

Bertillon chegou a ter sucesso também com a adoção de técnicas de impressões digitais, às vezes ele guardava as impressões digitais dos criminosos, porém, continuava convencido da superioridade do seu sistema de medição e, em mais de uma ocasião, faltavam as impressões no prontuário. Como os outros países adotaram as impressões digitais nos primeiros anos do século XX, o sistema francês de Bertillonage foi eliminado.

ANTROPOMETRIA

As teorias engenhosas de Lombroso desenvolveram-se a partir da antropometria que surgiu após a publicação de Origem das Espécies de Charles Darwin em 1859. Os entusiastas da entropometria passavam o tempo tomando medidas do corpo dos seres humanos, em especial de esqueletos, com a esperança de apoiar – ou refutar – as teorias de Darwin sobre a evolução da humanidade. Um desses entusiastas que aplicou os princípios da antropometria para a prática da investigação criminal foi Alphonse Beertillon.

A antropometria, a princípio, chamou a atenção de outros criminalistas, mas logo caiu em desuso, quando as impressões digitais foram internacionalmente aceitas como um método eficaz para a identificação dos criminosos. No entanto, as análises dactiloscópicas, como o conjunto de medidas físicas, conhecido como Bertillon, servem apenas como um meio para identificar uma pessoa já condenada ou para relacionar um suspeito com a cena de um crime. Como não é possível prever que uma pessoa possa estar geneticamente predisposta a cometer crimes a partir da impressão digital, alguns peritos continuaram a busca de um elo visível entre as características físicas e a personalidade do criminoso. Os adeptos da quiromancia - um assunto considerado um pouco mais respeitável que a feitiçaria pela polícia e pelos criminalistas – afirmam poder detectar tendências psicológicas no padrão das linhas da mão.